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ARTIGOS EMDR
Bolsa de Canguru - Geração Mulher
Geração canguru
por Clarissa Martins
Ao contrário das décadas de 60 e 70, quando a mocidade idealista saía em busca de autonomia para morar em qualquer 'cafofo', hoje encontramos jovens adultos, sem pressa de sair de casa. Os filhos dessa geração libertária encontram a liberdade dentro do quarto. Com casa, comida, roupa lavada, a "geração canguru" aproveita a comodidade da bolsa marsupial da mãe, para juntar uma grana, ter uma qualidade de vida melhor ou apenas resistir em assumir as responsabilidades da vida adulta independente. Sem o conflito de gerações e empenhados em dar às crias a liberdade que não tiveram no seu tempo, os pais nada cobram em troca da boa companhia. Então, por que largar tudo isso?
Nem mesmo o casamento fez o economista Luiz Felippe Fonseca, 34 anos, sair de casa. "Eu saí, mas por apenas seis meses. Passei a vida inteira morando num casarão maravilhoso e não gostei de morar num apartamento pequeno", lembra. A decisão foi aprovada com comemoração pela mãe, que na época estava viúva. E a esposa também não se incomodou pois, por incrível que pareça, é amiga da sogra. "A casa é muito grande e minha mãe estava sozinha. Agora tem companhia, neto e as contas são divididas. Com certeza para ela é melhor", garante. Muita coisa mudou com o casamento. O que antes era feito pela mãe, passou a ser função da empregada que Felippe contratou para cuidar da família. "Ela não precisa mais se preocupar comigo e em dezembro vou ter outro filho. Ela está radiante", comemora.
O estilo canguru de ser é predominantemente masculino. Segundo a psicóloga paulista Magda Pearson, o perfil é de rapazes, de 29 a 32 anos, solteiros ou que separaram e voltaram para casa dos pais. "Quase todos são executivos, marketeiros, bem-sucedidos, com pós graduação e bons carros. São grandes na função que exercem profissionalmente, mas não querem enfrentar a vida. Se acham incapazes de cuidar de uma casa. É cultural, cresceram ouvindo que isso é coisa de mulher", explica. Para Magda, esses filhos são fruto de uma educação superprotetora. "As mães não criam cidadãos. Preferem dar o peixe a ensinar a pescar", completa. As mulheres, segundo Magda, são mais independentes e buscam cada vez mais seu espaço, tanto pessoal, quanto profissional. Dessa forma, correm mais atrás para manter sua liberdade.
Sem esposa, mas com a mãe. Esse é o caminho para muitas pessoas quando um relacionamento não dá certo. Depois de seis anos de casamento e dois separado, as contas apertaram e o arquiteto Rodolfo Soares, 34 anos, voltou para o colo da sua progenitora. "Achei que seria terrível, mas foi melhor do que imaginei. Retornar para casa é muito complicado, significa um fracasso. É horrível não ser capaz de bancar a própria casa. Não é nada agradável, estou angustiado", desabafa. Seu padrão de vida era alto e, além disso, Rodolfo se sentiu na obrigação de manter o conforto de seu filho. A única opção foi correr para as asas da mãe. Nem que temporariamente. "Eu trabalhava para pagar contas, não sobrava nada para mim. Mas não tenho moleza. Minha mãe é superindividualista, nunca fritou nenhum ovo para mim, não paparica mesmo. Tenho a minha vida, faço tudo dentro de casa. Não pago as contas, mas compro minha comida", descreve. Essa história é muito ouvida por Magda. "Muitos se separam e voltam para a mãe com a desculpa financeira, mas com a terapia percebi que tem algo a mais. Eles estão frustrados, com baixa auto-estima, com medo de não dar certo e geralmente não se aproximam mais da confraria dos amigos homens", comenta.
Abrir mão do conforto e das mordomias é uma decisão difícil. "Saí de casa há três meses, mas ainda estou assustado, me acostumando. Acho que demorei por questões financeiras e pela facilidade que minha mãe sempre me deu", confessa o policial Aercio Aureliano, 35 anos, aposentado precocemente depois de um acidente de trabalho. Esse canguru assumido nunca contribuiu em casa e a decisão de ir morar sozinho partiu dos pais, que compraram tudo para ajudar o filho a sair da 'bolsa'. "Eu sempre quis ver meus filhos se encaminharem na vida, mas o Aercio nunca gostou de trabalho. Como ele tinha arrumado um novo emprego, parou de usar drogas e eu decidi ajudá-lo. Mas em dois meses ele pediu demissão. Estou revoltada. É muito preguiçoso, coloca defeito em tudo para não trabalhar. A casa dele é só para dormir. Aercio fica aqui o dia inteiro, almoça, lancha, janta e guarda o carro na garagem. Até o celular eu pagava, mas agora cansei", esbraveja a supermãe canguru Graça Aureliano, 58 anos, que se culpa por ter feito todas as vontades do filho. "Quando soube que ele usava drogas fiquei com medo dele traficar e comecei a dar tudo. Também queria saber com quem andava e o que fazia. Achava que tinha algum controle", confessa.
O custo de vida nas grandes cidades também é um empecilho para os filhotes soltarem as amarras. "Com o meu salário é impossível morar sozinha, preciso encontrar uma amiga que queira dividir um apartamento comigo. Quando brigo com a minha mãe, ela joga um monte de coisas na minha cara, inclusive, que se eu não estivesse lá, a vida dela seria melhor, pois poderia morar num apartamento menor e mais barato", lamenta a bióloga Camila Buarque, 29 anos, que já foi casada duas vezes, mas acabou voltando para a casa da mãe, onde encontra a geladeira cheia, o banho quente e as roupas lavadas. "Nós somos superamigas, temos uma relação aberta, faço o que quero. Namoro, transo, fumo meu baseado, convido meus amigos sem problemas. Mas mesmo assim começo a sentir uma necessidade quase 'fisiológica' de cortar o cordão umbilical", revela.
Essa situação é confortável para ambas as partes. Segundo a psicóloga Patrícia Madruga, os filhos têm mordomias e a mãe companhia. "Essa troca é vantajosa. Principalmente para os pais que, quando ficam mais idosos, se sentem mais amparados. E essa opção é muito boa. Os pais deixam os filhos fazerem tudo que querem, o quarto é uma pequena casa, é o império do filho, onde geralmente, não há limites", explica. E não é porque o filho mora com os pais que será uma pessoa acomodada. "Depende muito mais da educação e dos valores de cada família, do que do convívio e das paparicações diárias. Mas mesmo sendo caro morar sozinho, quando o desejo é verdadeiro, sempre se dá um jeito de saltar mais alto", conclui.
Legal são os pais que acreditam que os filhos são do mundo. Só dessa forma a educação é voltada para o incentivo à liberdade e ao crescimento, tão necessários para que a adolescência não se estenda tempo demais. Curtir o calorzinho do colo da mãe é maravilhoso, mas morar sozinho não significa perder esses bons tratos. O medo de enfrentar o novo e assumir responsabilidades é muito maior do que a realidade. Mas, como no mundo animal, tudo tem um limite: nem os verdadeiros cangurus ficam na bolsa marsupial por mais de um ano.
Agradecimentos:
Clínica Pássaros e Flores
Psicóloga Magda Pearson
Rua Pássaros e Flores, 339 – Brooklin – SP
Tel.: (11) 5096-5466
magdapearson@hotmail.com
Espaço Criar-se
Psicóloga Patrícia Madruga
Praia de Botafogo, 210/901 – Botafogo – RJ
Tels.: 2553-4040 / 2553-2321 / 9917-3594
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