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ARTIGOS EMDR
Estresse Pós Traumático: Perguntas e Respostas
Autor: Antonio Ricardo Teixeira-2002
Psicólogo clínico, Traumatologista, Hipnoterapeuta & Orgonoterapeuta - Crp01-6578
Introdução
Tão antigas quanto a presença da vida na terra, as respostas de lutar, fugir ou congelar frente a uma ameaça fazem parte essencial dos meios de sobrevivência das espécies. Ao mesmo tempo em que somos equipados com estes recursos de proteção, temos também os meios biológicos e psíquicos para desfazer o efeito de tais experiências, quando cessa o perigo. Por várias razões, ainda não totalmente compreendidas pela ciência, nem sempre estes mecanismos entram em ação de modo adequado, fazendo surgir reações patológicas capazes de afetar de modo decisivo a vida das pessoas envolvidas. Os estudos feitos com ex-combatentes, vítimas de abuso, e outros que passaram por eventos ou situações traumáticas, demonstram a importância do fato de que as experiências traumáticas podem estar na origem de diversas problemáticas psicológicas e orgânicas. A principal delas é o Transtorno do Estresse Pós-Traumático que passaremos a conhecer mais adiante.
Qual a importância de se tratar deste assunto?
A humanidade vive, hoje, um estresse paradoxal. Adaptar-se aos novos conhecimentos e aparelhos formulados pela ciência e tecnologia e, simultaneamente, sobreviver a experiências traumáticas decorrentes da crueldade, ignorância e da própria natureza. O trauma passa a ser de interesse público, uma vez que qualquer cidadão, criança ou adulto, está sujeito a viver em uma situação traumática, como é o caso dos socialmente e familiarmente desamparado, ou a sofrer um evento traumático e suas conseqüências. O objetivo deste artigo é, de forma clara e didática, fornecer informações que ajudem a compreender e orientar sobre o trauma e seus efeitos.
O que é TEPT?
O TEPT-Transtorno do Estresse Pós-Traumático é uma patologia que pode surgir em pelo menos 25% das pessoas envolvidas em eventos traumáticos. Distingue-se do Estresse traumático, aquele que surge durante e logo após a exposição a qualquer evento traumático, por seus sintomas persistirem por mais de 3 meses após o evento. Sendo possível também que os sintomas só venham a aparecer muito tempo depois. Os principais eventos traumáticos são aqueles que trazem sentimentos de ameaça a vida, integridade física ou moral, rompendo o sentimento de proteção e previsibilidade. São eles: assalto; violência (urbana ou doméstica); guerra; agressão; ser humilhado; seqüestro; acidente; abuso físico verbal e/ou sexual; catástrofes naturais, tais como: enchentes, furacões, terremotos; estupro, perdas inesperadas, diagnóstico de doença grave, procedimento médico invasor, (cirurgia, alguns tipos de exames,) ser preso, etc.
Quais são os sintomas mais freqüentes?
Os sintomas do TEPT estão associados à intensa experiência de medo, impotência ou horror experimentado numa ou mais das situações acima citadas, onde a pessoa vivenciou ou testemunhou tal evento ocorrendo com outras pessoas. São eles: lembranças repetitivas, constantes e que surgem espontaneamente interferindo no curso normal da vida. Pesadelos, hiperexcitabilidade; hipervigilância, (a pessoa se sente sempre ansiosa, como se estivesse em perigo, pronta para lutar ou fugir); esquiva, (a pessoa passa a evitar lugares, pessoas e situações que possam lembrar o trauma. Por exemplo, uma moça que sofreu abuso sexual, ou estupro, passa a evitar envolvimentos amorosos ou encontros sexuais. Filhos que foram mal tratados por seus pais, evitam visitá-los quando crescem e vão embora de casa, etc.) Negação, (recusa a reconhecer o evento traumático como tal, ou pactos de silêncio); Perda da capacidade de se relacionar afetiva e amorosamente; Desinteresse geral pela vida; Perda da perspectiva de futuro, (amoroso, profissional, etc.); Irritabilidade; Raiva excessiva; dificuldade de concentração e memória. Depressão ansiosa.
Há também a possibilidade de que o trauma tenha deixado a pessoa num estado dissociado do qual ela não consiga sair. Os sintomas que podem surgir são: amnésia, incapacidade de recordar fatos significativos do passado, ou períodos da vida, confusão de identidade, (a pessoa se sente confusa quanto a quem ela é podendo até adotar uma outra identidade); sentir-se desligado de si mesmo, como se estivesse se observando de fora. Profundas divisões na personalidade são encontradas em pessoas traumatizadas.
Os Traumas de infância são mais importantes?
Devido ao modo como as psicoterapias foram se tornando mais populares, passou-se a acreditar que a maioria dos problemas das pessoas decorre de traumas de infância esquecidos. No entanto, esta é apenas uma das formas de entendermos a angústia decorrente dos traumas não resolvidos, pois uma pessoa pode ter sua vida bastante afetada caso tenha experimentado um ou vários choques traumáticos em sua vida, mesmo depois de adulta. Veja o caso de pessoas que sofreram traumas de guerra, assalto, seqüestro, ou ameaça de morte e que tiveram suas vidas prejudicadas a partir de então.
No entanto, os traumas sofridos na infância que não foram solucionados de forma adequada, podem deixar profundas marcas na personalidade, fazendo com que a pessoa prolongue um estado de sofrimento, frustrações e problemas que a fazem pensar que a vida é assim mesmo. Sua vida passa a ser orientada por crenças que, atuando inconscientemente, impedem ou dificultam a realização amorosa, profissional e pessoal. "Não mereço ser feliz", "não sou capaz ou competente" para isso ou aquilo, "viver é sofrer", "não tenho o direito de realizar meus desejos", etc. são algumas das crenças que podem estar orientando a existência de alguém que passou por traumas na infância que não se resolveram de forma apropriada. Algumas destas marcas causam verdadeiras divisões no eu, que se encontram na base de muitos sofrimentos. O contrário também ocorre, ou seja: devido a fatos traumáticos que fizeram o indivíduo sentir-se inferiorizado, é possível se adotar uma postura narcisista de superioridade, numa tentativa precária de sair da angústia.
Por que existe o trauma?
O trauma acontece porque tudo o que vive na natureza é vulnerável e requer proteção frente às ameaças. Desde o nascimento, somos afetados por, pelo menos, dois medos básicos. O medo de perder e o de sermos destruídos. O medo da perda se refere às nossas fontes de segurança que vão desde os pais, na infância, até nossas relações significativas que estabelecemos na vida adulta, tais como: emprego, a família, amigos, etc. Já o medo de sermos destruídos se refere aos perigos que podem atingir a integridade física a auto imagem (ego). O corpo humano é dotado de mecanismos naturais que nos levam a lutar, fugir ou congelar diante de eventos que sugerem uma destas duas possibilidades. São respostas adaptativas que trazemos de nossa herança biológica, que garantem a sobrevivência da espécie. O fator surpresa é preponderante no desenvolvimento destas reações, forçando-nos a dar uma ou mais das respostas anteriores. Quando somos bem sucedidos, ou seja, superamos a ameaça, o corpo volta a seu funcionamento normal, após algum período de adaptação. Nestes períodos ocorrem reações físico-químicas de descarga e acomodação de nosso equilíbrio hormonal e neurológico, quando então recuperamos nosso senso de auto proteção e de previsibilidade, preservando assim a auto confiança. No entanto, muitos indivíduos não conseguem se recuperar totalmente, ficando presos à situação não resolvida como bem mostram os sintomas acima descritos. (leia também reações ao estresse)
Por que algumas pessoas passam por eventos traumáticos sem apresentar o Transtorno do Estresse Pós-Traumático?
Não existe uma causa única para que esta patologia não se instaure. Há vários fatores que são levados em consideração, para se avaliar por que algumas pessoas apresentam maior sensibilidade a eventos traumáticos do que outras. O que parece ser o principal fator favorável é que se tenha um histórico de respostas bem sucedidas, preferencialmente, desde a infância. Por exemplo, ter em si, consciente e ou inconscientemente a idéia e a sensação de que foi uma criança protegida, pelos pais ou outros e que foi capaz de aprender a se cuidar e se proteger. Ter sido capaz de resolver, de forma bem sucedida, outras situações estressantes. Preservar em seu dia a dia, hábitos saudáveis, que lhe fazem sentir-se bem a maior parte do tempo. Ter vínculos significativos de amizade, amor e trabalho. Ter habilidades sociais. Ter preservado o contato consigo mesmo, ser capaz de compartilhar sentimentos, tais como: alegria, tristeza, prazer, etc. No entanto, se a pessoa já é vítima de uma história traumática, ou se está vivendo sob pressão profissional, por doença, em si ou na família, ou tem características de personalidade que favorecem a uma baixa auto-estima, pode ser mais fácil desenvolver o TEPT. Outro fator importante é a gravidade da ameaça. Estes são fatores ambientais e de formação da personalidade. Os fatores genéticos ainda estão em estudo, sem que a ciência tenha encontrado qualquer explicação significativa.
Qual o melhor tipo de tratamento? Remédios? Psicoterapia?
Até hoje a ciência ainda não definiu nenhuma forma de tratamento 100% eficaz em nenhum tipo de doença, física ou mental. No caso do TEPT, alguns medicamentos podem ajudar a lidar com o estresse da situação, mas não são soluções definitivas, servindo apenas para reduzir a ansiedade. Quando as psicoterapias lidam mais com os aspectos subjetivos resultantes das experiências traumáticas e menos com as "feridas" traumáticas em si, que são formadas pelas emoções, tais como: medo de morrer, sentimentos de devastação e impotência; pensamentos, que se manifestam como crenças inibidoras e imagens através das quais se revive espontaneamente o trauma, as soluções tendem a surgir mais lentamente. Como só a partir de 1980 é que o TEPT foi reconhecido oficialmente pela psiquiatria americana e desde então é que novas abordagens psicoterapêuticas têm sido desenvolvidas e testadas com relativo sucesso, nota-se que as mais bem sucedidas são principalmente aquelas que ativam os recursos naturais do corpo para se curar, além de lidar, simultaneamente, com os processos psicológicos e aspectos subjetivos. Sendo que só agora é que estão chegando ao Brasil.
A cura do trauma depende mais do corpo do que da mente?
Diante de uma ameaça à vida nosso corpo se ativa tão fortemente que são necessários recursos tanto biológicos quanto psíquicos para se lidar com a tensão causada pela ameaça. Por muitas razões é possível que ocorra uma falha nos mecanismos naturais de resolução, impedindo que o organismo volte ao seu estado de equilíbrio, que lhe permite funcionar normalmente. Daí surgem os sintomas e sua constância, acabando por se constituir num quadro clínico definido. Toda a ativação biológica que não é resolvida tende a produzir sintomas, tanto físicos quanto psíquicos, até que encontre um meio apropriado de se desfazer. Portanto, é tão importante analisar os aspectos subjetivos deixados pela experiência traumática, uma vez que cada sujeito tem seu modo próprio de interpretar o que vivencia, quanto examinar os aspectos fisiológicos responsáveis pelos principais sintomas do TEPT, tais como a hiperativação, as imagens intrusivas e o congelamento.
O que é EMDR-Eye Movement Desensitization and Reprocessing?
A partir da descoberta feita pela Dra. Francine Shapiro, de que os estímulos bilaterais, associados às lembranças traumáticas e a um modo específico de conduzir-se diante das manifestações dos clientes, chamado por ela de protocolo básico, é possível acelerar a resolução de memórias traumáticas, reduzindo drasticamente seus efeitos, em pouco tempo, com eficácia duradoura e significativa nos casos de TEPT. Seu poder de cura está cientificamente comprovado por diversos trabalhos de investigação empírica e pela experiência de mais de 30.000 terapeutas treinados em diversos países.
Qual a duração deste tipo de tratamento?
Os tratamentos com EMDR podem alcançar resultados desejáveis em uma média de 12 sessões, sendo que há relatos de casos que foram solucionados em menos tempo e outros que foram mais demorados. ÉMDR é uma excelente ferramenta de trabalho que tanto pode ser empregado como psicoterapia breve como pode ser parte integrante de um processo mais longo, que vise a reconstrução da personalidade.
Reações ao estresse
Sinais físicos
·Fadiga Náusea
·Tremores musculares
·Espasmos
·Dor no peito
·Dificuldade de respirar
·Aumento da Pressão arterial
·Aceleração do batimento cardíaco
·Sede
·Dificuldades de visão
·Vomito
·Ranger os dentes
·Fraqueza
·Tontura
·Sudorese acentuada
·Calafrio
·Estado de choque
·Desmaio
·Etc.
Sinais cognitivos
·Culpar as pessoas
·Confusão
·Desatenção
·Indecisão
·Aumento ou diminuição do estado de alerta
·Dificuldade de concentração
·Perda de memória
·Hipervigilância
·Dificuldade para identificar objetos familiares ou pessoas
·Aumento ou diminuição da capacidade de estar atento ao ambiente
·Dificuldade para resolver problemas
·Inibição da capacidade de abstração
·Desorientação no tempo e no espaço
·Pensamento perturbado
·Pesadelo
·Imagens intrusivas
·Etc.
Sinais emocionais
·Ansiedade
·Culpa
·Luto
·Negação
·Pânico severo (raro)
·Choque emocional
·Medo
·Insegurança
·Descontrole emocional
·Depressão
·Respostas emocionais inadequadas
·Apreensão
·Sentimento de estar sobrecarregado
·Raiva intensa
·Irritabilidade
·Agitação motora
·etc.
Sinais comportamentais
·Alterações na atividade
·Alterações dos padrões de fala
·Retraimento
·Emotional outbursts
·Levantar suspeitas
·Alterações na maneira de se comunicar
·Perda ou aumento de apetite
·Beber compulsivamente
·Dificuldade para descansar
·Atitudes anti sociais
·Queixas corporais inespecíficas
·Alerta excessiva ao ambiente
·Intensificação dos reflexos
·Andar de um lado para o outro
·Movimentar-se de maneira errante
·Alterações do funcionamento sexual
·etc.
Los Angeles County Department of Mental Health
O TEPT pode levar ao suicídio?
Sim. Entre os danos causados por situações traumáticas está o de se perder a perspectiva de futuro, entrar em depressão e cometer suicídio. É o caso de ex-combatentes, presidiários, vítimas de tortura, estupro, etc. No entanto, o mais comum é o suicídio existencial, que ocorre quando o trauma gera uma fuga da vida, quando se entra num retraimento tão profundo que leva a pessoa a viver numa quase completa reclusão, pois a pessoa, tentando evitar tudo que possa lembrar o trauma acaba por quase não viver.
Os traumas podem estar associados a outras doenças?
Há evidências de que não somente o TEPT pode surgir de uma ou mais experiências traumáticas. Vários transtornos de ansiedade, como o de pânico e fobias podem estar associados a memórias traumáticas encobertas, ou não. Também os casos de Transtornos Dissociativos, doenças psicossomáticas e alguns tipos de depressão. Mulheres que cometeram aborto na juventude, principalmente se a gravidez decorre de estupro, e não superaram os sentimentos de culpa tendem a adoecer ginocologicamente mais cedo e com mais freqüência. Há estudos que mostram que o câncer também pode ser desencadeado por experiências traumáticas.
(O autor explica que este trabalho é o resumo de uma pesquisa ainda em curso, que envolve estudos mais aprofundados em psicanálise, orgonomia (W.Reich), experiência clínica e a contribuição de diversos autores estudiosos do trauma que em breve estará publicada em livro)
Bibliografia:
(poderá ser obtida diretamente com o autor pelo email: ricteixeira@terra.com.br)
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