ARTIGOS EMDR

Fica em contato com isso...
"Fica em contato com isso": o paradigma fundante do EMDR
Carlos Eduardo Melo Oliveira


"A mudança da denominação, de EMD para EMDR em 1990, incluía uma mudança de orientação da formulação comportamental inicial, de simples dessensibilização de ansiedade, para um paradigma de processamento de informações mais integrador." (Francine Shapiro).

Interessada na correlação entre os processos mentais, psíquicos, afetivos e fisiológicos, Francine Shapiro descobriu casualmente, em 1987, que movimentos oculares espontâneos dessensibilizaram situações ansiogênicas que lhe geravam sofrimento. Era como se, em estado de vigília, pude-se experimentar um processo neurofisiológico similar ao do sono REM (rapid eyes movement) - as ondas cerebrais relacionadas ao período dos sonhos e que têm uma função reparadora muito importante para o nosso organismo. Pesquisas com grupos de controle, confirmaram a eficácia dessensibilizadora do EMD (Eye Movement Desensitization, como denominou o método inicialmente). Nesse primeiro momento Francine centrava o tratamento por essa abordagem na dessensibilização das situações traumáticas (como opção à técnica de exposição da abordagem comportamental que mostrava-se em alguns casos retraumatizante ou insuportável, levando a elevadas taxas de evasão).

Em março de 1990, Shapiro foi dar seu primeiro curso de treinamento. A partir da experiência de compartilhar e transmitir os procedimentos iniciais do método, ampliou o escopo de sua conceituação e atuação, enfatizando, ao lado do processo de dessensibilização neurofisiológica, a reestruturação cognitiva, e ampliando o foco do tratamento das vivências traumáticas para quaisquer informações disfuncionais não processadas. Assim se constituiu o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing), numa mudança não apenas terminológica mas paradigmática que passa a abarcar o complexo sistema de processamento de informações, incluindo a psicodinâmica como um dos aspectos centrais do tratamento, através da necessidade de incluir uma atenção especial à vulnerabilidade e ao timing do cliente. Também passou a buscar variações no método adequando-o à diferentes indicações clínicas e dirigiu maior ênfase às tensões corporais e às comunicações não verbais presentes durante o tratamento.

Uma de suas premissas básicas é que a maior parte das psicopatologias baseia-se em experiências infantis. A natureza disfuncional das memórias de experiências passadas, propicia que crenças e afetos a elas relacionados persistam no presente. Através do acionamento do sistema de processamento de informações (e de dessensibilização dos afetos interligados) há uma mudança espontânea, na forma e no sentido em que se estabeleceu esse registro. O objetivo é metabolizar esses resíduos disfuncionais do passado possibilitando seu registro na memória declarativa, capaz de relatar e atribuir um sentido àquelas experiências. A imagem mnêmica torna-se não mais perturbadora, e associada a cognições, afetos e sensações físicas apropriados.

Outro principio básico expõe uma crença em um movimento reparador natural do organismo. Assim como o corpo está biologicamente adequado para buscar a saúde ("cicatrizando feridas" através da complexidade de seu sistema imunológico), há no sistema de processamento de informações uma tendência a gerar estados de saúde mental desde que esteja desbloqueado para seguir seu rumo e seu fluxo (como a noção de ambiente facilitador para Winnicott). Parte-se, portanto da crença em um processo de maturação e auto-cura reparadora desde que se provenham as condições favoráveis para que esse processo espontâneo se dê.

É aí que chegamos no "fica em contato com isso", o retorno mais comum que o terapeuta, utilizando o EMDR, verbaliza para aquele a quem acompanha. Uma forma de remetê-lo a própria experiência imagético-afetiva com a qual estava em contato, sem interferências. Nesse sentido, se o processo não requisitar intermediações mais complexas, ele vai se dar autonomamente a partir do fluxo associativo da pessoa em tratamento. Nessa perspectiva, as intervenções excessivas na condução do processo por parte do terapeuta pode ocasionar uma sensação intensa de invasão e interferência. Daí a importância e o sentido de "fica em contato com isso".

São elementos fundamentais do paradigma fundante do EMDR, segundo Shapiro, a confiança no acesso, processamento e transformação espontânea de informações (e afetos relacionados) a partir de uma interação fisiológica, não invasiva. Ao focar a experiência e simultaneamente ativar a estimulação bilateral através do foco dual da atenção (no estímulo presente e na memória passada) há uma transmutação resultante que ocorre espontaneamente em direção à saúde.

"Essa crença é a base do modelo centrado no cliente do EMDR, que afirma que as transformações cognitivas e afetivas durante o tratamento de EMDR se encaminham para um nível ótimo com uma intervenção clínica mínima." (idem, p.15).

Winnicott associou às reações à invasão, a construção do falso self. Resta apreendermos em nossa prática clínica a capacidade de acolher (holding) e seguir dando suporte (handling) aos processos intrapsíquicos e intersubjetivos do ser/pessoa/sujeito que nos escolheu para acompanhá-lo nessa travessia da vida.

Psicólogo clínico, psicoterapeuta corporal e em EMDR (Níveis I e II).
Doutorando em Saúde Coletiva (IMS/UERJ) .
SHAPIRO, Francine. Eye Movement Desensitization and Reprocessing: basic principles, protocols and procedures. New York/London: The Guilford Press, 1995, p.12 (publicado pela Editora Nova Temática, RJ).