ARTIGOS EMDR
Entrevista com Dra. Tereza Robles - Hipnoterapeuta
Diretora Fundadora do Centro Ericksoniano de Mexico.
Centro Ericksoniano do México.
por Marilia Baker, M.S.W.
Guest Editor, The MHE Foundation Newsletter
The Milton Erickson Foundation, Inc.
Background: Teresa Robles Uribe recebeu seu titulo de Mestrado em Antropologia Social (1966) pela Universidade Nacional Autonoma do Mexico - UNAM - por onde também recebeu seu Doutoramento em Psicologia Clinica (1985). A Dra. Robles tem a distinção de haver feito estudos posgraduados e pesquisa no "Institut International de Recherce et de Formation en vue du Developpement Harmonise" (IRFED) em Paris, 1968. Terapeuta de Familia e Supervisora Clinica pelo "Instituto Latinoamericano para Estudios de la Familia" (ILEF), Teresa, juntamente com Jorge Abia, M.D. fundou o primeiro Instituto Milton H. Erickson do Mexico (1989).
Membro Fundador da Sociedade Mexicana de Hipnose, serviu, até recentemente, como Presidente desse órgão, sendo também membro da Sociedade Mexicana de Terapia Familiar, da Sociedade Internacional de Hipnose (ISH), e da Sociedade Cubana de Hipnose. É também Membro do Conselho Editorial de varias revistas internacionais inclusive "Hipnose Clinica e Experimental Brasileira", desde 1995, e outras publicacoes no Mexico "Psicologia y Ciencias Sociales" Revista ENEP Ixtacala (UNAM), Turquia "Sleep and Hypnosis" e Alemanha "Hypnosis, International Monographs", desde 1996.
Teresa tem varias publicacoes em Antropologia Social, Psicologia Clinica e Hipnoterapia. Uma bibliografia aparece ao fim desta entrevista, inclusive com os livros atualmente traduzidos para o português. Atualmente preside e dirige, como diretora-fundadora, o "Centro Ericksoniano de Mexico", organizacao que representa uma evolucao de seu pensamento e conceituação das abordagens naturalistas Ericksonianas. Teresa Robles é fluente em inglês, francês, italiano, português e espanhol, sua língua nativa.
Marilia Baker, M.S.W., é hipnoterapeuta ericksoniana, por muitos anos associada à Fundação Milton H. Erickson em Phoenix, Arizona. Certificada pelo Arizona Board of Behavioral Health Examiners, como terapeuta de Familia e de Casais. Marilia é iniciadora do projeto "The Couples Center"(TCC) na Clinica Phoenix Interfaith no Arizona, onde reside e trabalha. Credenciada e certificada em Hipnose Clinica pela American Society of Clinical Hynosis (ASCH). Foi um dos diretores fundadores do Instituto Milton H. Erickson de São Paulo (1995) e atualmente serve como membro do conselho de diretoria do Instituto Milton H. Erickson de Florianópolis, SC.
Marilia Baker (MB): Teresa, seus colegas e pares a reconhecem como sendo pioneira em muitas áreas profissionais e como tendo a reputação de aceitar muitos desafios e desfrutar deles, como se fosse uma pessoa que se "rebela contra as regras", sempre fazendo somente o que quer.
Teresa Robles (TR): Não, não é bem assim. Eu me sinto confortável como parte da Familia Ericksoniana, exatamente por causa de sua flexibilidade. Não sou exatamente "contra as regras", porque estas são parte da vida. Minha luta é contra a rigidez. É por isso que me sinto à vontade como ericksoniana.
MB:Então, de onde se origina essa reputação?
TR: Sou uma pessoa que gosta de explorar novas idéias e abrir novos espaços, novos caminhos. Por exemplo, quando comecei a trabalhar com a hipnose ericksoniana no Mexico, muitos colegas se chocaram com meu interesse e disseram que eu estava penetrando num campo estranho, pouco serio, até mesmo esotérico.
Escrevi, por muitos anos, num estilo acadêmico, rigoroso, esquemático, cheio de termos técnicos e formais. Em 1989, contudo, estudando com Agustin Monsreal, o laureado escritor de contos mexicano, este me deu permissão para escrever no estilo e maneira que mais me agradasse. Dessa forma, comecei a escrever, como me sugeriu, platicadito , ou seja, de uma maneira que todos pudessem me entender. Quando publiquei "Concierto para cuatro cerebros en psicoterapia" (1990) fui muito criticada; meus colegas diziam que eu não deveria ter descrito conceitos e técnicas numa linguagem que todos pudessem entender! Quando o médico Jorge Abia e eu fomos a um programa de rádio para falar sobre hipnoterapia, fomos criticados por levar tal tema a um meio de comunicação das massas. Esses colegas diziam que estávamos fazendo 'marketing' barato. Entretanto, hoje em dia, muitos psicoterapeutas escrevem em linguagem coloquial e são entrevistados em programas de rádio e televisão.
MB: Há quanto tempo está envolvida no movimento ericksoniano? Desde quando é ericksoniana?
TR: Acredito que sempre fui "ericksoniana", mesmo sem ter consciência de sê-lo. Desde criança, minha Familia dizia que eu vivia "en la luna" ou seja, em transe, sempre construindo meu mundo interno, um mundo no qual queria viver. Quando descobri Milton Erickson, me dei conta de como é válido olhar para o lado positivo da vida e enfocar-se nele para construir uma realidade interna que, posteriormente, se torna a realidade do mundo externo. Pensei: "esta abordagem me serve como uma luva" e me meti de cabeça no aprendizado das metodologias e técnicas.
Nunca cheguei a encontrar-me com o Dr. Erickson. Logo depois de sua morte, em 1980, entrei em contato com a Fundação e comecei a participar de encontros no Mexico e fora do pais. Estava "faminta" para aprender e disseminar entre meus colegas tudo sobre as abordagens ericksonianas. Havia tão pouco em espanhol.
MB: Este fato, a incentivou a começar escrever em espanhol?
TR: Exatamente. Meu primeiro livro sobre hipnose foi "Concierto para cuatro cerebros en psicoterapia" (1990). Escrevi esse trabalho quando comecei a fazer sentido do que estava aprendendo, isto é, a atar cabritos como dizemos, a integrar todas as minhas experiências e minha consciência dos diferentes momentos da minha historia profissional, que incluem: a antropologia, o desenvolvimento internacional, a psicoanalise, a terapia familiar, a hipnose e tudo que tínhamos do Erickson.
MB: E como você vem 'construindo', ao longo dos anos, esse seu mundo como profissional da saúde? Identifico três patamares nessa construção: o primeiro, como psicoanalista e depois como terapeuta familiar; o segundo, como fundadora e co-diretora do primeiro Instituto M.H. Erickson no Mexico (1989) e finalmente, agora, o terceiro, como diretora-fundadora do Centro Ericksoniano do Mexico.
TR: O alicerce dessa construção foi minha busca. Apesar de ter querido ser, inicialmente, psicoterapeuta, escolhi estudar antropologia porque gostava de viajar e de estar em contato com o povo. Meus estudos me permitiram viajar a lugares bem remotos e a viver nas comunidades indígenas.
Em 1967, me casei e viajei para a Franca com uma bolsa de estudos. Minha intenção era voltar ao Mexico e trabalhar na região dos índios Tarahumara. Em vez disso, por causa das rebeliões estudantis em 68 e as mudanças políticas no México, nossos planos foram engavetados. Quando voltamos de Paris, com nossos filhos gêmeos, meu marido e eu nos instalamos na Cidade do Mexico. Resultado: acabou-se meu sonho de trabalhar com os índios Tarahumara!
Comecei então a fazer pesquisas bibliográficas, como professora universitária e como antropóloga, longe do contato direto com a população. Estava bem infeliz. Um dia, resolvi passar pela Faculdade de Psicologia, determinada a assistir algumas aulas e complementar meus conhecimentos. Mas, aí…eureka! Soube que poderia candidatar-me para os exames ao Mestrado em psicologia clinica, e foi o que fiz a seguir. Passei com ótima classificação!
MB: Você demonstrou, mais uma vez, essa conhecida reputação de ser "audaciosa" e de ter uma curiosidade sem limites!
TR: É verdade. Sempre faço tudo "na garra". Em meu curso de psicologia clinica fui submetida à disciplina rigorosa dos estudos acadêmicos e passei por cinco anos de analise didática igualmente rigorosa - era o requisito para todos os candidatos à pratica psicoanalista. Como sempre, mergulhei nessas exigências com todas minhas energias. Contudo, não me sentia confortável, nem como paciente, nem como psicoterapeuta. Me sentia forçada a ver o mundo através de lentes negras demais!
MB: Certamente que era o total oposto de sua maneira de ver "la vie en rose"!
TR: Claro. Eu me sentia muito zangada e muito desgostosa por ver que minhas contestações eram interpretadas como "negação" ou, pior ainda, "resistência"! Exatamente a mesma resposta que havia tido toda minha vida quando eu sonhava e planejava para um mundo melhor. Assim mesmo, comecei a atender pacientes sob supervisão psicoanalitica.
MB: E, como chegou à terapia familiar?
TR: Uma colega me convidou para um grupo de estudos facilitado por dois argentinos, Ignacio Maldonado e Estela Troya. Logo em seguida o grupo se tornou Instituto Latino-Americano de Estudos sobre a Familia (ILEF). Fui a primeira geração graduada desse programa.
Formei um grupo de trabalho no ILEF, constituído por Rosemary Eustace, hoje presidente da Associação Mexicana de Terapia Familiar, Diana Rubli, atualmente presidente do ILEF e Marta Fernandez. Posteriormente nos tornamos o Centro Mexicano de Pesquisas e Clinica (CEMIC). Subseqüentemente à minha formação, comecei a trabalhar com pacientes, desenvolvendo novas abordagens e técnicas, fazendo hipnose e dando seminários. Encontrar Erickson e a hipnose me trouxe profundo significado à minha vida naquele momento. Comecei a freqüentar as conferencias ericksonianas e a ministrar cursos e palestras, tanto no México como fora do pais.
MB: Quais eram os assuntos sobre os quais escrevia quando começou?
TR: Sempre gostei de escrever. Quando jovem, escrevia contos, depois artigos sobre antropologia, depois analise política, posteriormente livros e artigos em psicoterapia e, finalmente, livros de hipnose ericksoniana.
MB: E como começou seu envolvimento com pacientes cirúrgicos?
TR: Quando conheci Jorge Abia, M.D. logo nos tornamos bons amigos profissionais. Tínhamos os mesmos interesses. Nos imergimos profundamente e com intensa energia no trabalho com os pacientes crônicos, ele como médico clínico, eu como psicoterapeuta. E, nessas alturas, num momento crítico para mim, fui informada de que precisava de uma operação de vesícula.
Pareceu-me muito incongruente que sugerisse aos meus pacientes que controlassem sua dor com respiração apropriada, visualização, imagens, e que me submetesse a uma cirurgia sob anestesia. Dessa forma, determinada a operar-me somente sob hipnose, convidei a Jorge Abia para ser meu hipnotizador/instrutor. Começamos a buscar um cirurgião que aceitasse o desafio e um anestesiologista que se dispusesse a estar de alerta. Eu tinha somente um mês para preparar-me.
Utilizei todas as estratégias que usava com meus próprios pacientes, e simultaneamente condicionando-me para a cirurgia. Jorge e eu decidimos a videografar a operação com a intenção de apresentá-la no próximo Congresso Ericksoniano a tomar lugar em San Francisco (1988).
Essa experiência ocasionou também muitas mudanças em minha vida pessoal. Divorciei-me de meu marido após 21 anos de casamento, minha filha estava se casando no dia 3 de dezembro e o congresso seria no dia 5, logo em seguida. Pensei com meus botões: " Primeiro saio de ferias, no avião de meu filho depois faço a operação de vesícula, depois. Entrego minha filha em casamento e, depois viajo a San Francisco!
MB: À medida que a hora da cirurgia se aproximava, você teve algum momento de dúvida com relação ao fato de possivelmente não conseguir controlar a dor somente sob hipnose?
TR: Não. Nunca hesitei por um momento sobre minha decisão de operar-me sob hipnose! É assim que normalmente funciono: uma vez que tome a decisão nunca volto atras. Muitos amigos e parentes estavam preocupados. Daniel, meu filho mais moço advertiu-me: "Mãe, existem dores que matam. O que vai acontecer se a senhora sentir dor e recusar anestesia, ou por teimosia?"
Mas, eu estava determinada a construir minha realidade de que sim, era absolutamente possível operar-me somente sob hipnose. E eu não arredava o pé! Jorge Abia hesitou um pouco, no começo, e dizia que, como médico ele poderia parar o processo e introduzir as drogas. E eu contestava: "Não, não e não. Se você considerar essa hipótese, não quero que seja meu hipnotizador. Deixamos essa responsabilidade, das drogas, para o próprio cirurgião! Quero que você seja meu hipnotizador e que construa comigo somente UMA realidade: "Sim, podemos faze-lo"!
MB: Sentiu medo em algum momento?
TR: Somente uma vez me amedrontei. Chamei Jorge e ele começou imediatamente a trabalhar comigo pelo telefone. Descobri então que este era o mesmo medo que senti quando mergulhei pela primeira vez no mar, depois de ter praticado numa piscina. Abia rotulou esse medo como temor a uma nova situação, aonde estava fazendo exatamente o que queria fazer. Decidimos então utilizar a imagem agradável de um mergulho nas profundezas do oceano.
Sim, houve um momento de medo, mas jamais duvidei do poder da hipnose. Mais tarde, quando assisti o vídeo, ai sim, fiquei atemorizada! É assim que sempre acontece: mergulho nas coisas e depois, é que caio em mim… "que fui fazer?"
Jorge estava preocupado com minha atitude tão determinada. Pediu a Marta Fernandez, psicoanalista, que fizesse uma entrevista clinica comigo para avaliar e examinar a fundo se essa minha decisão tinha a ver com tendências auto destruidoras. Dessa forma, ela fez uma indução para levar-me a um transe profundo a fim de descobrir "as verdadeiras origens" desse meu processo de tomar decisões. Durante o transe, vi meu pai, um homem muito audacioso e aventureiro, que havia morrido num desastre aéreo, enquanto pilotava seu pequeno avião. Senti então meu pai me abarcando e dizendo: "Tu quieres vivir y vivir es sentir". Ou seja, você quer viver plenamente e viver é sentir tudo plenamente'. Uma cor alaranjada nos rodeava e estávamos flutuando no ar.
Como eu tinha sido a instrutora de Abia no curso de hipnose, minha única preocupação era que talvez minha mente racional estaria 'em cima' dele o tempo todo, para checar se estava fazendo tudo certinho durante a cirurgia. Decidimos então utilizar uma imagem de desconcertar o meu cérebro esquerdo, e envolve-lo num pano branco e faze-lo somente trabalhar em questões não relacionadas à operação. E realmente, não me atrapalhou em nada.
Durante a operação, minha mente racional prosseguiu na identificação dos passos que o cirurgião havia descrito em minha preparação. Quando senti o bisturi cortando as primeiras camadas de minha pele, senti uma sensação de queimadura, mas imediatamente visualizei o bisturi como se estivesse pintando uma faixa alaranjada. Pensei, "estou tendo imagens visuais, e isto significa que estou em um bom e profundo transe". Tambem percebi quando o cirurgião começou a cortar mais rápido e mais profundo, como acontece com a segunda camada da pele. Aí então disse ao Jorge: " Sim, sim, sim! Conseguimos! Vitoria!"
MB: E posteriormente, apresentaram o vídeo em San Francisco?
TR: Ainda que eu não tivesse um espaço formal para apresentar o vídeo da operação no Congresso (1988), levei-o comigo e mostrei para o Joseph Barber, ericksoniano especializado em controle e manejo de dor, e este organizou um pequeno grupo para ver o filme. Aí então foi que conheci a Mirta Ghiorzi Volek, uma psicóloga argentina que trabalhava na Fundação e que convidou a todos do CEMIC para o coquetel vip do Congresso, onde fui apresentada ao Jeffrey Zeig. E, através da Mirta, fomos convidados para apresentar um workshop sobre "Manejo de Dor, Medicina Tradicional e a Estrutura da Familia Mexicana como Recurso Terapêutico".
MB: Sim, eu me lembro muitíssimo bem desse seu trabalho conosco (maio de 1989). Foi excelente e aprendi bastante com você, Jorge Abia, Marta Fernandez e Guillermo Bernal!
TR: Durante nossa estadia em Phoenix, tivemos a oportunidade de estudar muitos dos vídeos do Erickson e de observar os terapeutas da Clinica em ação. E, quando terminamos o workshop, Zeig nos perguntou se queríamos estabelecer um instituto na Cidade do Mexico. Jorge Abia e eu dissemos em uníssono: "Sim, queremos!" E, a partir daquele momento dedicamos nossas almas e nosso tempo integral à consecução de um alicerce bem sólido para nosso Instituto, para expandi-lo, para criar novas técnicas e para disseminar a abordagem ericksoniana através de nossos ensinamentos e dos cursos de formação.
Minha experiência na infância de haver estudado em casa, com preceptores, até o fim do curso primário, me ajudou imensamente em aprender sozinha e no meu próprio ritmo. Sempre tive a impressão de que fazia as coisas mais rapidamente que os outros, enquanto estes ficavam para trás, mesmo depois de eu have-los ajudado ou dado um empurrãozinho. Mas, pela primeira vez, em anos, encontrei no Jorge Abia alguém que tinha os mesmos objetivos profissionais que eu e um nível semelhante de energia. Isto foi muito importante em nosso trabalho conjunto, mesmo que desde o principio soubéssemos que erramos bem diferentes um do outro. Brincávamos dizendo que um falava russo e o outro, chinês.
Sem duvida, nosso trabalho conjunto sempre foi um desafio e sempre nos enriqueceu muito. Nosso Instituto Erickson foi o primeiro no Mexico (1989) e o segundo em toda América Latina, depois do de Buenos Aires. A partir de nossos cursos de formação, oferecidos em todo Mexico, muitos institutos foram sendo estabelecidos. E, quando Jorge e eu terminamos nosso relacionamento profissional em 1998, mais de 1.500 psicoterapeutas e demais profissionais da saúde haviam feito formação conosco no Mexico e fora dele, e mais de 3.500 indivíduos haviam se consultado conosco no Instituto.
Durante os 10 anos de nossa colaboração, sempre foi um prazer trabalhar e refletir com Jorge Abia. Ele é um indivíduo brilhante, inteligente e criativo. Juntos desenvolvemos novas técnicas e abrimos muitos caminhos para a pratica da hipnose e da psicoterapia. Viajamos juntos e participávamos das conferencias internacionais, mostrando ao mundo ericksoniano e da hipnose clássica, nosso trabalho no Mexico. Fincamos nossa bandeira e estabelecemos nosso lugar tanto no mundo ericksoniano como na Sociedade Internacional de Hipnose (ISH).
Juntos fundamos a Sociedade Mexicana de Hipnose (1994) e nesse mesmo ano essa foi aceita como sociedade constituinte pela ISH. Crescemos rapidamente e nos expandimos rapidamente. Contudo, acredito que no fim, passamos por um processo semelhante ao daquelas famílias que se despedem do último filho que partiu para a universidade. Enquanto tínhamos o desafio de fazer com que a hipnose clinica ficasse conhecida e fosse aceita no Mexico, trabalhamos incansavelmente, sem parar. E, uma vez criado o 'filho' e este saiu do 'ninho' nossas diferenças se tornaram muito incomodas e eu senti um padrão familiar emergindo: eu queria prosseguir em direção aos meus sonhos e outros queriam convencer-me de que não era possível. Senti-me obstruída, impedida uma vez mais, mas, pelo respeito imenso a Jorge, afastei-me do Instituto MHE da Cidade do Mexico.
MB: E, neste momento, em que frentes pioneiras estão seus trabalhos?
TR: Em 1999, com as bênçãos da Fundação Erickson, estabeleci o "Centro Ericksoniano de Mexico", un lugar de encuentro , como dizemos, um lugar seguro para as pessoas se encontrarem e crescerem. Muito antes da chegada dos conquistadores espanhóis no Mexico, nosso povo acreditava que o altiplano onde nossa capital foi fundada era o ponto central de unificação, o fulcro de uma rede extensa pelo pais e além, que recebia e exportava produtos, crenças, conhecimento, idéias e tecnologia. Eu tenho o máximo prazer de estar no centro dessa rede, e ter este lugar de encontro, onde o indivíduo que está sofrendo, poderá ter, se necessário, terapia gratuitamente. Também temos trabalho clinico privado, com pacientes de alta renda e muitos contratos com a industria e comercio.
Recentemente, por exemplo, tivemos um evento que batizamos como: "venha tomar um cafezinho e bater um papo saudável", ou seja, nossa versão da "happy hour" terapêutica. Numa outra ocasião, fizemos um grupo sob o titulo " Pais Desesperados", cujos filhos tinham problemas mentais ou de drogas. Em pouco tempo esses pais se tornaram "ex-desesperados" e se tornaram bons amigos, deram estrutura para a vida de seus filhos e simultaneamente aprenderam que tinham o direito de desfrutar de sua própria vir da, separadamente à dos filhos.
Quero também que o "Centro Ericksoniano de Mexico" seja un lugar de encontro para todos os grupos de profissionais trabalhando com hipnose tanto no Mexico, como no mundo das línguas latinas: América Central e América do Sul, Brasil, Portugal, Espanha, Franca, Itália.
MB: E como se interessou em trabalhar com pacientes psiquiátricos?
TR: A "loucura" sempre foi muito intrigante para mim, sendo que é um grande desafio à imaginação e as habilidades do terapeuta. Aqueles que sabem trabalhar com pacientes crônicos e psicóticos, podem trabalhar com quaisquer outros pacientes. Eu me sinto desafiada por essa dificuldade e não tenho temor algum à doença mental grave. Nestes últimos dez anos, Jorge Abia e eu trabalhamos individualmente com pacientes graves e crônicos, e quase todos eles puderam voltar à vida normal e serem produtivos. Subseqüentemente, tivemos de sistematizar esse trabalho a fim de expandi-lo a mais pacientes.
MB: Então, uma vez fundado o Centro Ericksoniano, você teve de começar da estaca zero!
TR: Isso mesmo. Meus associados e eu passamos o ano passado inteiro estruturando e re-estruturando, ao mesmo tempo de nos tornávamos "uma comunidade". É muito importante para mim que o Centro Ericksoniano de Mexico seja um grupo profissional onde cada um possa caminhar a seu próprio ritmo, e simultaneamente sentido-se apoiado por todos nós. Todos os terapeutas aqui trabalham tempo integral. Podem ter seus próprios horários e fazer o que mais gostam. Meu compromisso com eles era de que teriam dinheiro para o trabalho clinico como também para dedicarem-se à pesquisa, ao ensino e à reflexão. Foi um compromisso enorme de minha parte!
Este ano tem sido bem produtivo, organizamos a administração, e restruturamos todos os materiais didáticos. Reorganizamos também os programas de capacitação para que fossem aprovados pelo governo federal para fins de um titulo de mestrado em Psicoterapia Ericksoniana (o primeiro no mundo!). Estamos também publicando vídeos de treinamento, uma videoteca, e uma biblioteca tradicional. Ao mesmo tempo, atendemos os pacientes e também temos uma equipe que vai divulgando nosso trabalho na comunidade, a fim de abrirmos mais portas. Também estamos trabalhando com as corporações a fim de proporcionar-lhes programas em recursos humanos. E, mais ainda, duas vezes por ano temos o curso intensivo internacional de treinamento, aberto a colegas de todos países.
MB: Em conclusão, Teresa, poderíamos dizer que o Centro Ericksoniano do Mexico alem de ser um lugar de encontro para as pessoas se sentirem seguras e para crescerem é também um lugar onde se possa ir mais além e mais profundamente no trabalho e na missão para disseminar Erickson?
TR: Sim, isso mesmo. Queremos que o Centro seja um lugar de estudos de pós-graduação, reconhecido e credenciado pelos devidos conselhos de educação superior. Também estamos preparando o terreno para termos os frutos do que será no futuro um hospital psiquiátrico e de ensino para os profissionais da saúde. Será uma 'casa de crescimento' onde indivíduos e famílias que estão sofrendo poderão aprender outra vez o ABC do saber viver. O nome da organizacao que estará fundamentando esse hospital é YO SOY CRECIENDO . Além disso, o CEM (Centro Ericksoniano de Mexico) tambem abriga nossa editora, a Editorial ALOM, que vem publicando meus livros e que será expandida para maiores projetos.
No momento, devido as dificuldades econômicas em todos nossos países latino-americanos, temos de aprender a levar para frente nossos projetos e programas, sem muito dinheiro. E isto tem sido muito desafiante para mim. Muito do que fizemos no ano passado foi baseado em trocas, permutas, como eu fazia durante meus tempos de antropóloga. No ano passado, convidamos Katalyn Varga, uma pesquisadora húngara que foi nossa consultora em troca de assistir nosso programa intensivo em psicoterapia ericksoniana.
Minhas responsabilidades financeiras e de gerenciamento tem sido imensas. Temos sete terapeutas em tempo integral, assim como uma boa equipe de apoio secretarial. Eu pedi um empréstimo no começo, mas já pude repor as dividas. Meu papel como diretora do Centro é a realização de um grande sonho, além do que, muito agradável e divertido!
MB: Teresa Robles, você é uma mulher notável, profissional competentíssima e, uma contribuidora extraordinária ao pensamento e pratica ericksoniana. Muito obrigada por esta entrevista ato especial!
TR: Eu é que agradeço. O prazer foi todo meu!
Fonte:www.hipnoterapia.net - Pesquisa: Dra. Elaine Marini
TEREZA ROBLES |