ARTIGOS EMDR
O Segredo está no Olhar
Pesquisadora Norte-americana cria método terapêutico baseado em exercícios oculares que potencializa os resultados das psicoterapias
Rodrigo Alves
Em 6 de novembro de 1997, a capa do tradicional jornal norte-americano The New York Times exaltou o sucesso da técnica terapêutica EMDR (sigla em inglês para Eyes Movement Desensibilization and Reprocessing), criada no início da década de 80 e até aquela data aplicada a cerca de um milhão de pessoas. Introduzida no Brasil naquele ano, a terapia avança lentamente no país devido a rigorosos critérios na formação de profissionais, mas contabiliza excelentes resultados clínicos, segundo terapeutas e pacientes que já a utilizaram.
Embora possa ser considerada uma forma de terapia breve, devido aos resultados rápidos em caso de sintomas do transtorno do estresse pós- traumático (TEPT), a Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares - como podemos traduzir o significado de EMDR - também entusiasma psicoterapeutas como ferramenta auxiliar no tratamento de patologias mais severas.
Pela experiência do psicólogo reichiano e hipnólogo Antônio Ricardo Teixeira, um dos responsáveis pela introdução do EMDR no Brasil, a técnica é eficaz em mais de 80% dos casos de TEPT, em que o cliente pode ter sido vítima de um assalto, uma catástrofe da natureza, guerra, agressões e perdas dolorosas, entre outros. Fobias, síndrome do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo e uso de drogas são apontados como ocorrências com maior sucesso no tratamento.
"O que surpreende a maioria dos clínicos que se iniciam na técnica é a quantidade de abusos sexuais e transtornos dissociativos (caracterizados pelos sintomas da amnésia, tristeza e identidade múltipla) que são trazidos à tona, diferente do que ocorre com a utilização de outros metidos." Teixeira explica que em patologias como psicose, depressão profunda e transtorno de humor, por exemplo, que requerem tratamentos mais longos, o EMDR tem se mostrado um ótimo método auxiliar. Outra grande vantagem da terapia é a possibilidade de combinação com qualquer abordagem psicoterapêutica.
Resumidamente, o EMDR consiste no resgate de sentimentos e lembranças dolorosos aliados a estímulos oculares bilaterais. De acordo com o protocolo, após procedimentos como anamnese e explicação do método para o cliente, o terapeuta pede a ele que se concentre em memórias e sensações perturbadoras e mantenha, ao mesmo tempo, os olhos fixos na ponta dos dedos de uma das mãos do profissional. Postado em frente à pessoa, o psicoterapeuta faz determinado número de movimentos da esquerda para a direita e vice-versa, para depois questioná-lo sobre sensações e insights. Também podem ser usados estímulos bilaterais como rápidos toques nas duas pernas.
Segundo a criadora da metodologia, a terapeuta norte-americana Francine Shapiro, pesquisadora-sênior do Instituto de Pesquisa em Saúde Mental da Universidade de Palo Alto, na Califórnia (EUA), quando o paciente combina a memória do trauma aos movimentos laterais dos olhos, ativa mecanismos cognitivos e fisiológicos que reprocessam o trauma e dessensibilizam a ferida, como sugere o nome da terapia.
COMO MUITAS DAS DESCOBERTAS CISNTÍFICAS, A DE FRANCINE SHAPIRO TAMBÉM OCORREU POR ACASO
Como muitas das descobertas científicas, a de Shapiro também tem peculiaridade de ter ocorrido por acaso. Foi no ano de 1987, enquanto ela caminhava por uma parque carregando lembranças desagradáveis em sua mente. De repente percebeu que, em determinado momento, essas lembranças desapareceram e, quando evocadas novamente, provocavam sentimentos bem menos intensos. Intrigada, ela repetiu o resgate de lembranças ruins até que percebeu a ocorrência de movimentos bilaterais, rápidos e involuntários, de seus olhos enquanto revivia as cenas.
A conclusão sobre o efeito terapêutico foi consolidada em pesquisas posteriores. Na primeira das mais de 12 publicações norte-americanas sobre o tema, Francine Shapiro conta as experiências com veteranos da Guerra do Vietnã que se livraram dos chamados flashbacks do conflito - estrondos de bombas e tiros ecoando na mente, por exemplo - após as sessões de movimentos oculares.
Em 1995, o EMDR deixou de ser um método experimental para ser reconhecido por várias instituições, incluindo a Intenacional Society for Traumatic Stress Studies (Sociedade Internacional de Estudos do Estresse Pós-traumático). Uma das pesquisas mais abrangentes, ainda na fase experimental, coletou informações junto a 443 profissionais habilitados há pelo menos seis nessa técnica. Em termos de qualificação, 47 % deles possuíam doutorado e 55% tinham mais de dez anos de prática clínica. Desses entrevistados, cujo total de clientes tratados com EMDR somou cerca de dez mil pessoas, 85% declararam que a clientela teve mais memórias dissociadas ("reprimidas") emergindo com a nova técnica do que com qualquer outra. Outro lado relevante foi a menor ocorrência, comparando o EMDR a outras técnicas, do que o livro chama de "atividades não incomuns para clientes frágeis em psicoterapia", entre as quais estão: ideação suicida, cancelamento da sessão seguinte, aparecimento de doença física e término prematuro do tratamento.
Por outro lado, dois tipos de atividades, agitação extrema ou pânico e dissociação durante a sessão, fora, apontados como mais freqüentes durante a aplicação do EMDR.
Divã Turbinado - Atualmente há cerca de 300 profissionais treinados no país. Esse número relativamente pequeno deve-se ao rigor do EMDR Institute, fundado por Francine Shapiro e responsável pelo ensino do protocolo. Apenas membros da instituição podem ministrar cursos, sendo que todos os profissionais habilitados brasileiros aprenderam a técnica com a Argentina Graciela Rodriguez, que de tempos vem ao Brasil com esse objetivo.
A maioria dos terapeutas treinados declara ter tido uma postura inicialmente cética, mas acabou surpreendendo-se com os efeitos do método sobre eles próprios. Só que os próprios psicoterapeutas habilitados afirmam ter colegas que torcem o nariz ao ouvir falar do EMDR. "Os preconceitos estão baseados em visões superficiais. Conheci o EMDR quando estava repensando minha clínica para atender as demandas mais atuais. A psicologia não está à margem dos processos atuais, e noto que a maioria das pessoas não quer mais sujeitar-se a terapias longas", argumenta José Mauro da Silva, psicoterapeuta corporal com formação e prática em bioenergética. Atuando nessa área há mais de 10 anos, no Rio de Janeiro, Garcia afirma utilizar EMDR em cerca de 70% dos clientes. "Posso dizer que é um divã turbinado porque aumenta muito a possibilidade de insights."
Questionado sobre a técnica, o psicanalista Wilson Amendoeira, do Rio de Janeiro, atual presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise, não vê, em princípio, problema em utilizá-la. Só adverte que não se deve esperar de seu uso transformações muito profundas. "O EMDR cria um tipo de estímulo que tem até um certo parentesco com as práticas iniciais da psicanálise de Freud. Ele colocava a mão na testa das pacientes para estimulá-las a falar livremente." A prática foi abandonada por Freud porque criava obstáculo à associação livre, que é requerida em um processo psicanalítico, ou seja, não vede haver censura, escolha ou atribuição de valor ao que está sendo expressado. Quanto à indicação de psicoterapias breves em geral e do EMDR especificamente, Amendoeira afirma: "A psicanálise não tem como dar conta, em termos quantitativos, da gama de sofrimentos que atinge a população, e nem é indicada para todos. Ao meu ver, técnicas para tratamentos mais focados são sempre válidos, visando dificuldades específicas e limitadas." Ele é da opinião que esses tr4atamentos são capazes de ajudar a pessoa a vencer uma dificuldade em um determinado momento de sua vida, só não de promover reestruturação de personalidade.
A psicoterapeuta Magda Sant'Anna Cabral Pearson, de São Paulo, utiliza um argumento histórico para defender o uso do EMDR mesmo sem o total conhecimento de suas aplicações. "Francine Shapiro costuma fazer uma analogia com a história da penicilina. Levou-se décadas para descobrir como a droga funcionava, mas mesmo assim ela era usada, por seus efeitos positivos." Com formação em hipnoterapia ericksoniana e psicossomática, Magda Pearson é responsável pelas primeiras pesquisas acadêmicas sobre o tema.
Em outubro do ano passado, a terapeuta elencou três pessoas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para serem monitoradas com os eletrodos de medição de ondas cereebrais, temperatura e tensão muscular de um aparelho chamado biofeedback. Após 15 a 20 minutos de estímulos oculares, ocorreram reações a lembranças traumáticas, como queda de temperatura e tensão muscular.
"Um dos resultados mais importantes foi a constatação do estado de vigília das pessoas porque predominam ondas cerebrais teta. Isso derrota críticas de que o EMDR provoca transe nas pessoas e impede que a técnica seja confundida com hipnose", afirma Magda Pearson. O próximo passo, diz ela, será trazer a Argentina Graciela Rodrigues para treinamento de profissionais daquela escola, visando a produção de teses que dêem respaldo científico ao EMDR.
O MÉTODO NA VISÃO DO PACIENTE
"Há cerca de três anos, descobri que tinha um problema que considerei emocional. Principalmente no trabalho, sentia uma falta de controle emocional. Quando ia preencher algum formulário com cliente, no escritório onde trabalhava, batia um medo que chegava a fazer minha mão tremer. Também tinha medo de que a pessoa percebesse que eu estava nervosa. Eu sabia exatamente quais tarefas executar no meu trabalho, mas quando meu chefe estava por perto eu ficava em pânico. Telefonemas profissionais na frente dele me deixavam apavorada, minha voz mudava. Em determinada época, até quando saía para fazer compras em um supermercado era um problema, porque o simples fato de preencher um cheque me dava uma ansiedade brutal. Passei a esquecer as coisas. Fui a um psiquiatra e fiz tratamento por um ano, mas os remédios não adiantavam. Conversando com um cliente do escritório, soube do método EMDR e fui até o terapeuta. A princípio achei estranho. Na primeira sessão contei minha vida toda e saí dali em dúvida se iria continuar. Não tinha consciência sobre algo específico que pudesse estar causando o problema. Após a segunda ou terceira sessão semanal surgiram lembranças sobre um abuso sexual que tinha sofrido na infância, do qual só me lembrava vagamente. O pensamento veio como se estivesse passando por aquilo de novo. Tive crises de choro naquele dia e nos dia seguintes. Tinha sessão em que me dava vontade de sair correndo, desaparecer, até porque sentia dores musculares muito fortes, a partir do pescoço. Fui processando o trauma até que, por volta da oitava sessão, senti que o bloqueio havia melhorado muito. Aquela cena horrível deixou de ser dolorosa para ser apenas uma lembrança triste, como um filme feio."
F.D.A., 35 anos, consultora
"Fui indicado ao EMDR em abril deste ano por meu sobrinho, que é psicólogo. Estava com problema familiar e sentia-me muito angustiado pelo envolvimento do meu filho, de 32 anos, com drogas. A vida da família ficou muito tumultuada, e eu sentia uma grande culpa. Nessas relações, cada um procurava culpar o outro, e às vezes você realmente acha que é o grande errado. Fiz dez sessões com EMDR e o maior efeito foi o de me livrar dessa culpa que me atormentava. Houve uma mudança no meu interior. Hoje ainda faço terapia de casal, mas estou bem mais tranqüilo com o problema do meu filho e senhor de mim mesmo."
Magno Matheus da Rocha, 69 anos, aposentado
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